Pároco de Pinhel entrevistado no jornal “A Guarda” pelos seus 25 anos de sacerdócio

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O pároco de Pinhel foi entrevistado pelo jornal diocesano A Guarda com motivo do seu 25º ano sacerdotal e que partilhamos aqui:

“Sou de opinião que a Igreja Portuguesa ainda não valorizou o suficiente a música que costumo denominar de inspiração cristã”

Jorge Manuel Pinheiro Castela, actual Coordenador Diocesano da Pastoral, é natural de Trancoso, mas sempre residiu na Guarda. Estudou nos Seminários da Diocese da Guarda, tendo sido ordenado sacerdote a 29 de Junho de 1996. Concluiu a Licenciatura em Teologia no IST-BD em Viseu, e a Licenciatura canónica em Teologia Prática na área Pastoral, na Universidade Pontifícia de Salamanca, grau obtido com a defesa da tesina “Do Emissor ao Receptor: evangelizar em tempos de mudança”. Gosta particularmente do que se refere à criação artística, sobretudo teatro, música e escrita. Tem similar entusiasmo com a pastoral como acção evangelizadora.

A GUARDA: O Padre Jorge celebra, este ano, 25 anos de ordenação sacerdotal. O que é que o levou a optar por este projecto de vida?

Jorge Castela: É difícil dar razões do nosso sacerdócio, buscá-las, dizê-las. Se calhar deveria haver milhares de razões e motivos. A este propósito vem-me ao pensamento um retiro orientado pelo saudoso padre Eugénio, que era simultaneamente o meu director espiritual, no meu 12º ano de Seminário, prestes a entrar no curso de teologia. Foi um momento da minha vida que não mais vou esquecer e que recordo sempre que preciso de força para o meu sacerdócio. Aquele dia em que, diante do sacrário, me questionava sobre as razões para ser padre e senti que Deus me amava de uma forma que não conseguia explicar. Essa foi e é a minha verdadeira razão. Ele ama-nos incondicional e gratuitamente como somos, mesmo que não o mereçamos. E é necessário que esta certeza que transforma a vida e lhe dá sentido seja partilhada com os outros.

A GUARDA: Ao longo destes 25 anos, quais os momentos mais marcantes e que mais o sensibilizaram como padre?

Jorge Castela: Não sou pessoa de guardar muitas memórias, embora guarde vivências que não sei traduzir facilmente em palavras. Marcaram-me muito coisas simples como alguns diálogos espirituais, confissões ou unções dos enfermos em que me senti um instrumento imerecido de Deus. Momentos que chamo de evidências de Deus, quando sentimos que o nosso ministério vale porque Deus o faz valer. Ou quando sentimos que deixámos marcas de Deus nalgumas pessoas. Posso salientar, a título mais especial, a oportunidade de presidir à acção de graças pelo dom da vida e missão da minha mãe, por ocasião do seu falecimento, e a oportunidade de poder participar na ordenação diaconal do meu pai e alegrar-me com o dom desta sua vocação.

A GUARDA: É conhecido o seu gosto pela música. Como é que tem aproveitado este meio como forma de evangelização, principalmente junto dos mais jovens?
Jorge Castela: A Banda Jota nasceu há muitos anos num momento em que assumira o rumo da pastoral juvenil na diocese. Nasceu com o objectivo de evangelizar. Assim como, mais tarde, o festival com o mesmo nome, o Festival Jota. Ao longo deste tempo, fiz um esforço por fomentar estes projectos e os de outros grupos ou artistas musicais, porque tenho consciência de que a música é um instrumento evangelizador de excelência. Sou de opinião que a Igreja Portuguesa ainda não valorizou o suficiente a música que costumo denominar de “inspiração cristã”, essa música que não sendo considerada sacra, tem um enorme potencial de comunicação, evangelização e até de oração.

A GUARDA: Também tem apostado em encenações, nomeadamente a Paixão, em Pinhel, para fazer passar a mensagem do Evangelho. Estas iniciativas têm produzido os frutos desejados?

Jorge Castela: Sobre o meu gosto pela encenação, eu diria que faz parte do acto criativo que me realiza particularmente e que tenho procurado usar para o anúncio da Boa Nova ao longo destes 25 anos de ministério. Sobre os seus frutos, não me cabe a mim avaliar ou medir, pois o objectivo com que faço estas coisas não se mede com os “likes” deste tempos pós-modernos, mas com as marcas que ficam em cada um. E isso só Deus sabe.

A GUARDA: Como Coordenador da Pastoral Diocesana tem em mãos a reestruturação deste vasto território. Em linhas gerais, quais as implicações desta reestruturação?

Jorge Castela: Como em tempos tive a oportunidade de dizer numa entrevista a este jornal, cabe a toda a Igreja Diocesana a concretização de uma reestruturação necessária, em espírito sinodal. E se o papa Francisco tem vindo a alertar insistentemente para uma mudança na acção da Igreja no seu todo ou no seu particular, esta pandemia veio tornar ainda mais urgente esta mudança. É preciso redescobrir a identidade, vocação e missão da Igreja. Para isso é imprescindível uma mudança de mentalidade, tanto pastoral como eclesial, que me parece ainda longe de alcançar porque mexe com hábitos, tradições e modelos pastorais arraigados.

A GUARDA: Como vê o futuro da Diocese da Guarda, principalmente nas zonas rurais, cada vez mais envelhecidas e despovoadas?

Jorge Castela: Creio que o envelhecimento e despovoamento das nossas comunidades cristãs é um facto ineludível. Por isso me pergunto e tenho questionado sobre como será a acção da Igreja nestas comunidades se continuarmos a querer manter uma Igreja clerical e ocupada a fazer apenas o que sempre se fez!

A GUARDA: Tem admiração pelo Papa Francisco? É o homem certo para este tempo?

Jorge Castela: Acredito que os papas sempre foram os homens certos no tempo certo e que o tempo de Deus é diferente do tempo dos homens. Não obstante, nutro um carinho e um apreço especial por este papa que nos tem ajudado a ver o mundo e a Igreja com outros olhos, um tipo de olhar que acho muito parecido com o olhar de Deus!

in Jornal A GUARDA