Em tempos de pandemia – Servir é mais importante do que o poder

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Estamos a menos de oito dias das celebrações de Fátima.

E este ano não vamos ter o quadro sempre muito emocio­nante da multidão, no recinto do santuário, a saudar a ima­gem de Nossa Senhora de lenços brancos na mão e a parti­cipar nos diferentes atos  comemorativos. O respeito pela saú­de das pessoas assim o exige e a nossa Fé também o recomenda, no estrito cumprimento da amorosa vontade de Deus que quer sempre que os seus filhos vivam.

Também não vamos ter os grupos de peregrinos a pé, calcor­reando estradas e caminhos, por todo o país,  que, durante dias e, às vezes, mais do que uma semana, caminham para o Santuário de Fátima iluminados e motivados pela Fé; sem­pre de olhos postos no exemplo e na intercessão da Mãe do Céu.

Desta vez, somos convidados a fazer peregrinação interior e es­piritual. E com  ela pretendemos ir ao essencial da nossa vida pessoal e em comunidade. É verdade que muitos pere­gri­nos, que fazem o seu percurso a pé, rumo ao Santuário, arrostando com o cansaço e o sofrimento, com as intem­péries de calor, frio e chuva ou noites mal dormidas, levam na sua carteira intenções variadas, geralmente a pedir a aju­da de Deus, através de Maria santíssima,  para necessi­dades pessoais, familiares ou de grupo; às vezes a gratidão por qualquer especial graça recebida; quase sempre, o desejo de interromper o ritmo normal da vida para darem espaço a outras dimensões diferentes do quotidiano.

Na experiência da peregrinação espiritual, a que este ano somos especialmente convidados, também porque as outras formas nos estão vedadas,  queremos ir ao essencial que nos faz mover na vida. E, no meio de um  mundo marcado pela indiferença religiosa e outras, sobretudo relacionadas com a prática de valores determinantes para a qualidade do viver pessoal e em comunidade, queremos redescobrir como o determinante para essa qualidade de vida não é o poder – poder do dinheiro, poder político, poder do estatuto social ou cultural ou outro. Pelo contrário, o determinante está na cultura do serviço. Todos fomos colocados na vida para nos servirmos uns aos outros, mais do que para exigirmos que alguém nos sirva. Ora, esta cultura do serviço começa por nos pedir uma grande humildade; pede-nos que saibamos exercer direitos, mas sempre conjugados com os respetivos deveres. E, se tivermos que nos sacrificar em alguma coisa pelo bem de todos, saibamos dizer sempre o nosso sim rasgado, como aquele com que os pastorinhos de Fátima responderam, com intrepidez impressionante, às palavras de Nossa Senhora. Ela perguntou-lhes se queriam oferecer a vida pela salvação dos outros. O sim sem rodeios que ime­diatamente lhe deram foi a grande fonte da sua alegria e felicidade, como o será também para todos quantos genero­samente colocam a sua vida ao serviço dos outros e da comunidade.

A este propósito, faz-nos sempre bem revisitar o quadro evangélico do lava-pés (ler Evangelho de João, 13, 16-20), pois nele encontramos a expressão mais acabada de como o servir tem sempre prioridade sobre o poder. E qualquer poder que não for serviço não serve para nada, mas só cria ilusões em quem o exerce e, às vezes, também nos outros.

7.5.2020

+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda