Em tempo de Páscoa, a Fé vai ser vivida em silêncio

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2020 vai ficar marcado na memória de todos. Mas há detalhes que vão tornar este ano verdadeiramente diferente. Sem visita pascal, por determinação da Igreja, é consensual entre os crentes que vai sentir-se mais solidão nesta altura do calendário. Diz, quem tem fé, que tudo tem um motivo

“Viver a Semana Santa em prevenção, contenção e comunhão”. Foi desta forma que D. António Luciano, Bispo de Viseu se dirigiu aos crentes anunciando que a Páscoa e as celebrações a ela ligadas vão ser este ano privadas de povo nas igrejas e capelas. Se a Semana Santa é vivida, nesta região, com recolhimento, obrigam as recomendações que, este ano, a Páscoa também assim o seja. No meio de todas estas mudanças que a Covid-19 obrigou a fazer, a visita pascal está também cancelada.

 

Visita Pascal antes era feita pelo pároco

Trata-se de mais um ritual ligado à fé que acontece no domingo de Páscoa e consiste em levar um crucifixo enfeitado com flores e cores vivas a casa de quem o quiser receber. Se há uns anos era o padre, com uma equipa que o acompanhava, quem fazia este percurso ao longo das aldeias da paróquia, essa missão está agora sobretudo entregue a jovens e menos jovens que, divididos em equipas, transportam a mensagem de que Cristo ressuscitou. “Era um momento muito belo e festivo nas nossas comunidades. Este ano será feito espiritualmente”, assinala o prelado de Viseu.

 

Ritual de fé contado na primeira pessoa

A notícia não apanhou Rita Nogueira de surpresa. A jovem já perdeu a conta aos anos em que participa no compasso, outro nome dado à visita pascal. “É o dia do ano em que nos reunimos, em que cantamos e espalhamos amor e esperança. Neste dia com pequenos gestos como um sorriso e um abraço fazemos felizes tantas e tantas pessoas”, descreve.

Rita faz parte de uma das equipas da visita pascal de Orgens e tem a missão de tocar uma sineta. O som que dela sai permite às pessoas que estão em casa, saírem à rua para se aperceberem se a equipa com a cruz está perto ou longe. “Agradecemos sempre às pessoas que nos recebem em casa, sempre com muita alegria e nos brindam com miminhos como as tradicionais queijadas, os panados, o ovo cozido, a bola de carne. Sem nunca falhar o vinho do Porto”, recorda.

A equipa pode ter mais ou menos pessoas. Contam-nos que há até sítios onde as amêndoas que estão nas mesas das famílias são oferecidas aos mais pequenos que integram o compasso. Ou tiradas por eles, sem maldade, confidenciam-nos. Obrigatório é ir alguém que leve o crucifixo, outra pessoa responsável pela entrega de um cartão e pela recolha da côngrua ou da oferta à Igreja e alguém que lê um texto que, por norma, leva esperança e força a quem recebe o compasso. Em muitos locais já não se usa a expressão côngrua, mas ela define o valor, em dinheiro que os crentes pagam ao pároco pela prestação de serviços religiosos, como missas ou celebrações de batizados ou funerais.

Nesta como noutras tradições, na mesa, há costumes que é quase obrigatório cumprir. Em muitas casas é uma laranja que ajuda a segurar o envelope que é levado pela equipa. Acredita-se que este fruto signifique a prosperidade dos trabalhos agrícolas. Os anos foram passando e a equipa da visita pascal foi-se alterando, mas, garante Rita, o espírito mantém-se. “O que realmente importa é que guardamos a memória deles e continuamos a representá-los hoje sempre”, diz, emocionada.

 

O momento que é visto como um convívio da família

É certo este ano que a sineta não será escutada nem em Orgens nem em outro ponto qualquer de Portugal. Sobretudo no norte do país, este é um ritual enraizado na população católica. Em Juízo, uma aldeia do concelho de Pinhel, Fátima Eusébio recorda tempos especiais vividos nos domingos de Páscoa da infância. “Lembro-me da visita da cruz vivida em família, na aldeia do meu pai. Como a minha família era enorme, íamos de casa em casa com a equipa da visita pascal. Então beijávamos a cruz e rezávamos várias vezes. Era uma alegria enorme, mesmo nos últimos anos com a família mais restrita”, lembra a responsável pelos bens culturais da Diocese de Viseu.

Este ano tudo será diferente. O filho de Fátima Eusébio também faz parte de uma equipa que cumpre a tradição do compasso na paróquia do Viso, em Viseu. “Está triste por não haver. Aliás até a prenda dos afilhados fica adiada para quando pudermos dar aquele abraço apertadinho e especial, só assim tem sentido”, refere rotina vai ser alterada, mas há ideias para contornar a situação. “Nós vamos participar na dinâmica que está a ser proposta a nível nacional. Vamos colocar uma cruz na varanda. Neste domingo de ramos colocamos uma fita roxa na cruz, no dia de Páscoa ela vai ser enfeitada com flores e uma fita branca”, concretiza Fátima Eusébio.

 

Os bolos de azeite são tradicionais nesta época

Além dos rituais de fé, a gastronomia não vai sofrer nenhuma pausa. “Em casa da minha mãe mantém-se o fazer dos bolos de azeite, que vão ser congelados para depois dar à família e aos amigos. E claro as filhoses que são deliciosas”, recorda. Do momento vivido em família, mas igualmente entre vizinhos e amigos próximos, a Páscoa de 2020 vai ser lembrada como um tempo de maior recolhimento. “No nosso pensamento, procuramos viver tudo da mesma forma, sentir a caminhada e a ressurreição de Cristo com a mesma alegria. No entanto é inevitável o sentimento de solidão, das ausências de familiares, dos abraços dados à chegada e à saída das celebrações, dos muitos sorrisos trocados. Sentimento de perda até na preparação da mesa… Mas procuro interiorizar que tudo isto terá um sentido”, conclui Fátima Eusébio.

 

“Um momento de ausência ajuda-nos a perceber a importância do que fazemos regularmente”

É também esse o pensamento do Padre Bruno Cunha, pároco em Orgens. “Apesar das circunstâncias, de não podermos viver a fé em comunidade, podemos privilegiar a chamada “igreja doméstica”. Nem tudo é mau. Abrem-se perspetivas, por exemplo, para a oração feita em casa”, defende o pároco. De resto, as dioceses de Viseu e de Lamego vão transmitir online os principais momentos de oração, na Páscoa. Em Viseu, a transmissão será feita no site oficial da Diocese.  Já em Lamego, as celebrações que decorrerão na Sé Catedral, vão ser exibidas também em direto, mas na página de Facebook da Diocese.

De Viseu será transmitida:
– a Missa Vespertina da Ceia do Senhor – 5ª feira, 9 de abril,, 18h
– a Celebração da Paixão do Senhor – 6ª feira, 10 de abril, 15h
– a Vigília Pascal – Sábado, 11 de abril – 21h
– a eucaristia da Ressureição do Senhor: Domingo, 12 de abril, 11h

De Lamego, haverá transmissão da:
– Ceia do Senhor – 5ª feira, 9 de abril, 17H
– Adoração da Cruz – 6ª feira, 10 de abril – 17h
– Vigília Pascal – Sábado, 11 de abril 21h

Têm surgido nas redes sociais várias ideias para que, em família, se ultrapasse este tempo de forma mais fácil. Uma delas passa por construir uma cruz com materiais que haja em casa e ser usada como símbolo da Páscoa. “Pode acender-se uma vela, ou que se coloquem flores, símbolo de alegria, numa cruz. Aliás, aqui em Orgens é costume algumas cruzes depois da visita pascal chegarem todas cheias de flores que recebiam ao longo da caminhada”, acrescenta.

O pároco defende que esta pode ser uma oportunidade para repensar o espaço que as coisas têm na nossa vida. “Quando voltar tudo ao normal, seguramente que toda a gente se irá lembrar deste ano. A Páscoa acontece todos os anos, tem sempre o mesmo significado e, por vezes, podemos cair na rotina. Quando nos falta, é que damos valor. Isto corta a rotina e cria um vazio que nos vai ajudar a perceber a importância do que nos está a faltar”, assinala o padre Bruno Cunha. A visita pascal tem este ano uma pausa, sem o badalar da sineta da Rita, ou a mesa composta e o espírito de bem receber de Fátima Eusébio. Haverá só silêncio.

Fonte: jornaldocentro.pt